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Catarine Martins Sobre Mim
O Le Fashionaire é um destino inspirador onde partilho o meu estilo e a sua constante evolução, os meus segredos de beleza e tudo aquilo que me inspira desde sítios a livros e pessoas. O foco está na partilha de conteúdo atemporal e de alta qualidade, mantendo-me sempre fiel a mim mesma.
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Pessoal: a minha cirurgia

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Abril de 2017. Caminho lentamente até ao Hospital. Vai ser a última vez que vou caminhar por uns bons tempos, e quero sentir o mundo pulsar debaixo dos meus pés.

Tenho medo. Mas ao mesmo tempo digo a mim própria que é o melhor. Já não dá para voltar atrás. E lá entro, pelas portas do Beatriz Ângelo, sem olhar para a rua. O caminho é em frente.

 

Já na sala, com a bata do hospital à espera do momento em que serei levada para o bloco cirúrgico, ocorre-me fugir. A minha mente está acelerada a engendrar mil e uma hipóteses de escapar dali. Ao meu lado o amor da minha vida e o meu pai. Eles não me deixarão fugir. E eu, por mais que queira sair dali, sinto o corpo preso à maca e aos fios que antecedem o momento que mais temo.

 

De repente, chamam-me. Catarine. É a minha última oportunidade de fugir. Mas não. Despeço-me do meu amor e lá vou, empurrada na maca. Fogo, sabe bem ser empurrada na maca. O vento na cara, a falsa sensação de liberdade.

 

Quando chego à antesala do bloco cirúrgico, sozinha, é que bate o medo a sério. Durante o que me pareceram horas não tenho ninguém com quem falar. Demasiado tempo livre para pensar em tudo o que pode correr mal. Não me permito chorar.

 

Chega então o médico com o consentimento informado. Vestido de azul, quase não o reconheço. Sei que, a partir do momento em que assinar é a sério, e já não posso voltar atrás. Quero que aquilo acabe depressa e assino. Sem hesitar.

 

Vem então um auxiliar que me desenha uma seta na perna a ser operada. Comove-me pensar que, dali a algumas horas, a seta dará lugar a uma cicatriz. Mas, que se lixe. Sou forte e vou sobreviver a isto. Sobrevivi à morte da minha mãe. Sobrevivo a tudo.

 

Chamam-me outra vez. É agora. Penso na minha mãe, e peço-lhe que me dê coragem. Desde que ela se foi já não peço nada a Deus. Não que tenha deixado de acreditar. É só que esgotei todas as rezas e preces durante a doença dela. Já não sei rezar.

 

O auxiliar que me muda da maca para a superfície dura, que parece um bocado de madeira, tem uma touca com bonecos e é divertido. Faço conversa e rimo-nos os dois, porque a melhor maneira de quebrar a tensão é mesmo rir.

 

Chega a anestesista. Um amor. Esqueci-me do nome dela, acho que é Laura. Falamos sobre o tempo, sobre as férias, sobre Coimbra e Lisboa. Rimo-nos as duas. Nesse momento já não tenho medo. Só quero que acabe.

 – Preparada? pergunta ela, sorridente

 – Vamos a isso, respondo eu

 

Entro, finalmente, no bloco cirúrgico. Não é bem como tinha imaginado, mas é parecido. Corrigem-me a posição na superfície onde estou deitada, para a anca ficar bem enquadrada. A anestesista diz-me para imaginar que estou nas Caraíbas. E eu imagino. Como queria lá estar, em vez de estar aqui. Começo a sentir-me a adormecer. É agora. A minha osteotomia vai começar. E eu só peço ao universo que o Dr. Paulo Rego esteja inspirado e faça um bom trabalho de carpintaria.

Desde que ela se foi já não peço nada a Deus. Não que tenha deixado de acreditar. É só que esgotei todas as rezas e preces durante a doença dela. Já não sei rezar.

De repente, já no recobro, ouço chamar o meu nome. Deixem-me, quero dormir. Vozes ao longe. Catarine. Catarineeeee. Quero dormir. De repente, começam a abanar-me. Sou obrigada a abrir os olhos. Parece que me passou um camião por cima. Muito frio. Fazem-me perguntas mas eu só quero dormir.
Ninguém me disse que seria assim. Bolas, é a minha primeira cirurgia.

 

As horas passam, mas fico perdida no tempo. Tenho dores e frio. Chegam os cobertores, o gelo para a anca e a morfina. Tudo fica mais fácil com a morfina. Não que tenha boas memórias, de carregar no botão. Lembra-me demasiado a minha mãe. Mas naquele momento é o botão que me tira as dores. Que se lixe, sempre que abro os olhos carrego.

 

Estou sempre a dormir e a acordar. Sonho e ouço vozes ao longe. A enfermeira é muito atenciosa mas não lhe consigo fixar o rosto. Parece que estou drogada. E estou mesmo.

 

No dia seguinte, tudo melhora. Chega o pequeno almoço, as enfermeiras lavam-me e parece que estou mais em mim. O meu pai e o meu namorado vêm ver-me ao recobro.

Nesse mesmo dia, saio da cama e passo para uma cadeira. Chega o fisioterapeuta, para me ensinar a ficar de pé. Fico tonta. Ficar de pé é um martírio.

 

Já no quarto os dias passam, cada vez melhor. Acaba-se a morfina e a sonolência e chegam os comprimidos para as dores. Visita do fisioterapeuta todos os dias, para mexer o pé e a perna. No penúltimo dia, antes da alta, ensina-me a andar de muletas. Não posso pôr o pé no chão. Custa, custa tanto. Apetece-me chorar e desistir. Mas obrigo-me a continuar. Se quero voltar a andar rápido tenho que me esforçar. E esforço.

 

Tenho alta 5 dias depois. Andar com as muletas é uma aventura dolorosa e, pela primeira vez na minha vida, deparo-me com as dificuldades do que é estar fisicamente limitada. Ainda não tinha chorado. Até ao momento em que precisei ir à casa de banho e o meu namorado teve que ir comigo. E andar um metro custou-me tanto como palmilhar a cidade inteira. Foi a primeira, e única, vez que chorei.

 

Os últimos dois meses foram uma aprendizagem muito grande. Recusei-me a ficar fechada em casa e na primeira semana em casa fui ao cinema. Tive que ir na cadeira de rodas do shopping e ficar na primeira fila, mas fui. Vi o Velocidade Furiosa 8. Aprendi a lidar com a dificuldade física. Continuei a maquilhar-me e a arranjar-me. Fui a uma entrevista de emprego com o pé no ar. Fiquei. Escrevo para o E-konomista.  Agarrei-me à vida. E à força que há em mim.

 

Hoje, as coisas estão quase normais. Já ando e, felizmente, já não tenho dor nenhuma. Aliás, tinha muito mais dores antes da operação do que agora. Continuo a fazer fisioterapia (embora não tenha perdido muito músculo) e é impressionante como o próprio corpo recupera os movimentos. Já falta pouco tempo para ter alta definitiva.

 

As fotos que publiquei aqui no blogue, nos últimos dois meses, foram todas tiradas antes da operação. Deu um trabalho enorme, mas este é o meu espaço e não quis que ficasse parado este tempo todo. Não havia outra forma.

 

Optei por não falar da cirurgia aqui antes por várias razões, embora tenha havido muitos momentos em que quis muito partilhar tudo convosco. Desculpem-me por isso. Faço-o agora, de coração aberto, já sem medos e com a alegria de quem pode dizer a plenos pulmões: consegui, superei-me.

 

Agora, finalmente, já posso voltar a fotografar e, acreditem, poucas coisas me deixam tão feliz quanto criar conteúdo para o blogue. Já posso andar na rua. Ir à praia. Viver, dando ainda mais valor à vida.

 

Provavelmente, a esta altura estar-se-ão a perguntar a que é que eu fui operada: bem, fui operada à anca em virtude de ter uma displasia. Entrei para o bloco cirúrgico com muitas dores, que me estavam a roubar qualidade de vida, e um parafuso a menos. Saí com 5 parafusos a mais, uma cicatriz e uma vida inteira para gozar a minha anca nova . Quer dizer, a anca continua minha (é mesmo o meu osso, sem prótese). Só foi posta no lugar de onde tinha resolvido sair.

 

Se chegaram até aqui, neste texto gigante, obrigada. Vocês, os meus leitores, mesmo sem saberem foram uma das minhas maiores motivações para recuperar rápido. E consegui. Muito obrigada.

 

Muito obrigada também ao amor da minha vida que, durante este período reiterou a minha certeza de que é a minha pessoa. Não poderia ter escolhido alguém melhor a quem dar o melhor de mim. Obrigada pela paciência, pelo carinho, pelo incentivo, pelos olhares, pela força, e por toda a ajuda.

 

Muito obrigada ao meu pai que, como eu, odeia hospitais depois do que passámos com a minha mãe, mas nunca arredou pé de perto de mim. Obrigada pelas palavras, pelo conforto, pelo carinho e por todo o amor.

 

Muito obrigada à minha amiga Cristina e à minha amiga Carolina, de quem não fui boa amiga nos últimos meses. Mas que adoro com toda a força do meu coração.

 

Muito obrigada ao Dr. Paulo Rego (especialista da anca) que me abriu um novo mundo de possibilidades sem dores. Obrigada a toda a equipa médica do Hospital Beatriz Ângelo onde fui muito bem tratada. Um agradecimento especial às enfermeiras Vânia, Rita e Filipa da Unidade de internamento da ortopedia que me fizeram sorrir todos os dias do internamento.

 

Muito obrigada ao “Manel” o meu fisioterapeuta que já ouviu falar do blogue, de moda e de cinquenta mil trivialidades e, ainda assim, me continua a aturar todas as semanas.

 

E é isto. Escolhi estas fotos para ilustrar este texto porque são as minhas preferidas de sempre.

Que a cada novo desafio imposto pela vida nos consigamos superar. Sempre de sorriso nos lábios.

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Vestido: Zara
Sandálias: Zara
Brincos: Mango
Pulseira: Kate Spade
Óculos de sol: Céline
14 Comentários
  • Isaura Cristina Brizida Louro
    Responder
    2017-06-23

    Palavras liiiiindas e muito sentidas, que despertam em nós sentimentos emoções que temos por vezes escondidas.
    Palavras de amor para a mãe que nos transportam a tempos idos…
    Sei que não sou uma amiga presente, mas que vos tenho sempre comigo, e que louvo a tua coragem pequena princesinha. Foste sempre uma guerreira, que apesar de tanto sofrimento, nunca desististe. E… Acredito que onde estiver a mãe, estará orgulhosa de ti ! Mil beijinhos e tudo vai correr bem, rápidas melhoras 😍 💖

  • 2017-06-23

    Olá querida
    Fico feliz por estar bem, em alturas como estás descobrimos o quanto somos fortes.
    Sim é impressionante como o nosso corpo recupera os movimentos, o nosso corpo tem a capacidade de recuperar tudo o que pode ser recuperado.
    Nunca perca essa força, nem a vontade de sorrir. Beijinhos

    http://www.opecadodagula.com

  • 2017-06-23

    Que bom que tudo correu bem ♥ e agora aproveitar o Verão “Brand New”. Um beijinho grande!

  • 2017-06-23

    Obrigada pelo teu testemunho. Estou a passar por uma situação parecida e estou fechada comigo própria. O dito dia da cirurgia está a chegar e a espera deixa duvidas. Vou…não vou… Mas as dores não me deixam. Tem de ser 😢. Revejo-me um pouco no teu testemunho.Deu-me mais força,coragem. Obrigada 🌸. Beijinho grande. @Carina

  • 2017-06-23

    Que texto lindo! Adoro o seu blog, Catarine 🙂
    Um beijinho grande!

  • Carolina
    Responder
    2017-06-23

    Catarine,
    Eu não poderei ter pedido à Deus uma amiga tão linda quanto você! E sabe porquê? Faltar-me-ia criatividade para imaginar alguém tão cheio de surpresas, tão delicado e ao mesmo tempo tão forte e resistente.
    Você sabe que mora no meu coração, que é a minha amiga querida e é uma daquelas pessoas que me dão forças para aguentar estar tão longe da minha família.
    Obrigada por me aturar, por ser minha amiga, minha família, a irmã que eu não tive…
    Te amo muitão!
    Grande beijo nesse seu coraçãozinho lindo,
    Carolina

  • Joana Sousa
    Responder
    2017-06-23

    Tudo está bem quando acaba bem – e pelo que li, a tua força foi essencial para isso! Que tenhas alta rapidamente <3 és linda!

    Jiji

  • 2017-06-23

    Gostei tanto do texto Catarine….
    Fiquei a saber muitas coisas sobre ti.
    Imagino que tenham sido dois meses bem complicados, mas tenho a certeza que saíste deles mais forte.
    E parabéns. Pela resiliência acima de tudo. Por não teres deixado de fazer coisas. Por não te teres amedrontado.
    Um beijo. De coração. E rápidas melhoras. Toda a luz e sorte do mundo! CC

  • Cristina
    Responder
    2017-06-23

    Minha querida amiga Catarine,

    Nada que te diga aqui será diferente ou tornará mais importante que tudo aquilo que te vou dizendo. Mas não me canso de o dizer: és muito especial, és muito importante para mim, para nós. Obrigada por existires e fazeres parte da nossa vida.

    És uma pessoa extraordinária, uma amiga maravilhosa!! Mereces o melhor que o mundo tem.

    Adoro-te do fundo do meu coração!

    Mil beijinhos e um enorme abraço,

    Cristina

  • Julia neto
    Responder
    2017-06-24

    És um mulher de muita garra , fibra , força , determinação e superação , quem te conhece tem prazer e orgulho de te ter como amiga , eu posso disser que tive esse prazer hoje estamos um pouco distante mas terá sempre um lugar em meu coração e em minha casa , desejo rápidas melhoras bjinhos grande e espero poder ver te em breve

  • 2017-06-24

    A forma como escreves é realmente impressionante e bonita. Consegues inspirar e transmitir uma imensa força com as tuas palavras, apesar de escreveres sobre algo que te deixou com medo, sobre uma experiência menos boa mas que, afinal, resultou numa forma de cresceres e ultrapassares um obstáculo. Parabéns pela escrita e, acima de tudo, pela força e resiliência! Rápidas melhoras e um grande beijinho <3

  • 2017-06-26

    Que texto bonito, tu escreves realmente muito bem! Consegues demonstrar muita força e ter muito os pés no chão. Adoro o teu blogue e venho aqui sempre que posso, e adoro sempre as tuas fotografias. Ter um amor para a vida que esteja connosco é sem dúvida muito bom, muitos parabéns por toda esta partilha!

    Mil beijinhos,
    http://mimiswardrobe.blogs.sapo.pt

  • 2017-07-03

    Boa Catarine! Estás óptima, e muito melhor agora com mais 5 parafusos! Gostei muito. Beijinhos Inês

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